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Sexta, 25 Julho 2025 00:00

Crítica — Too Much (Série da Netflix)

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Megan Stalter, de princesa da comédia na internet à destaque da Netflix Megan Stalter, de princesa da comédia na internet à destaque da Netflix Foto: Divulgação Netflix

“Too Much” tenta ser tudo ao mesmo tempo. Nova série de Lena Dunham na Netflix mistura romance, drogas, humor britânico, traumas emocionais, e acaba sendo “demais” mesmo

Lena Dunham retorna à televisão com uma série que reflete seus temas favoritos: mulheres caóticas, a dor dos recomeços, e o humor que nasce do desconforto. A protagonista Jessica, interpretada com brilho e carisma por Megan Stalter — que é muito mais do que o clichê da gordinha engraçada — é uma americana de trinta e poucos anos que, após um término humilhante com um músico esnobe, decide largar Nova Iorque para recomeçar em Londres. A história ecoa a própria experiência de Dunham, que se mudou para o Reino Unido após o fim de seu relacionamento com o produtor Jack Antonoff — e essa conexão biográfica é sentida em cada cena, para o bem e para o mal.

A série tem momentos afiados, com piadas inteligentes, diálogos carregados de ironia, e cenas absurdas que exploram bem o deslocamento cultural da protagonista. O caos da vida londrina, que inclui cocaína com o chefe, cetamina acidental e um envolvimento com um músico indie, ajuda a criar um ambiente vibrante, ainda que desequilibrado. O problema é que Too Much não consegue manter o ritmo: alguns episódios são muito menos inspirados do que outros (como os que apresentam os confusos e desnecessários flashbacks de Jess), e o fôlego da série oscila demais ao longo da temporada. A desigualdade narrativa é evidente e mina a imersão.

Além disso, o tom da série é por vezes instável. Dunham alterna cenas de humor ácido com momentos de drama emocional sem transições suaves, o que pode causar um certo desconforto ao espectador. A impressão é de uma obra que ainda está tentando descobrir o que quer ser: comédia desbocada? Crônica romântica? Drama sobre saúde mental? Ao tentar ser tudo isso, Too Much acaba sendo “demais”, e não se comprometendo com nada por completo.

A história de amor entre Jessica e o britânico Felix (Will Sharpe), que deveria ser o eixo emocional da série, é outro ponto fraco. O romance não tem profundidade suficiente para sustentar o peso que a narrativa tenta impor. Faltam conflitos reais, desenvolvimento dos personagens e, principalmente, impacto emocional. A trama amorosa parece colocada mais por obrigação do que por inspiração, funcionando melhor como pano de fundo do que como motor dramático.

Mas, claro, há pontos altos que merecem destaque. Um deles é Rita Wilson, excelente no papel de Lois, a mãe emocionalmente instável de Jessica. Com uma atuação contida e surpreendentemente sensível, Wilson constrói uma personagem que poderia facilmente cair no estereótipo da “mãe problemática”, mas escapa disso com dignidade, humor, e psicopatia silenciosa. Em vários momentos, sua presença rouba a cena, e faz o público — finalmente — esquecer que ela é “a senhora Tom Hanks” na vida real.

Too Much é uma série com identidade, mas falta-lhe direção. Ao revisitar temas já explorados com mais originalidade em Girls — o best seller de Lena Dunham — a autora entrega um projeto corajoso, mas que parece menos inspirado e mais disperso. É uma obra que acerta em partes, mas nunca chega a formar um todo coeso. No fim, por mais que nossa memória afetiva não queira assumir, talvez o título resuma tudo: há ideias demais, histórias demais, emoções demais… E foco de menos.

Leo Pinheiro é Diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame, e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova lorque

Última modificação em Sexta, 25 Julho 2025 08:28
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